
Uma criança perde a vida, alvejada por tiros disparados pelo poder militar, e duas outras ganham o direito a visão. Cinco pessoas morrem na fila do transplante, interrompida pelo poder público e uma linda mocinha sorri com o novo fígado transplantado do bombeiro atropelado.
Pessoas são solidárias até mesmo no momento em que poderiam ser egoístas, por estarem sofrendo uma grande dor.
Essa tendência que a maioria de nós tem em ajudar o próximo como primeiro impulso é usada com abuso pelas aves de rapina de plantão.
Hoje vendo um programa de TV que exibia pegadinhas (quadro de humor em que as pessoas são surpreendidas por algo inusitado) pude ver, na mesma ação, esta solidariedade e este abuso de que falo.
Pois vejamos; uma enfermeira, com um paciente na cadeira de rodas, pedia as pessoas que passavam pela rua que segurassem um frasco de soro, que era aplicado ao enfermo, em uma certa altura até que ela fosse buscar algo que esquecera.Pois bem, ela, só, não voltava como o paciente estrebuchava de tanto passar mal.Fazendo com que os espectadores rissem da aflição do solidário.É claro que algumas pessoas jogavam o frasco de soro para cima do enfermo e iam embora.Mas, a grande maioria não.Tentavam acalmar o paciente e insistiam em manter o soro no alto.
Daí, eu pergunto: é plausível brincar com esta qualidade do ser humano?É engraçado fazer troça da boa vontade alheia?É correto abusar da solidariedade de alguém?
A mãe, em solidariedade a polícia que perseguia bandidos, parou o carro e teve o mesmo alvejado perdendo o filho querido; para a mocinha sorrir foi necessário cinco pessoas morrerem para a "burro-cracia" liberar os transplantes.
Tanto a família do bombeiro, quanto a família do pequeno João Pedro foram solidárias num grande momento de dor, doando seus órgãos para atenuar o sofrimento de outras pessoas.
E o que faremos nós?Permitiremos que continuem abusando de nossa solidariedade?Seremos os que riem da solidariedade alheia?Ou diremos não ao abuso?Não, ao riso de nossas dores?
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