quarta-feira, 15 de julho de 2009

OS MASCARADOS

Foto by David Whitman

Era sábado de carnaval. A cidade fervilhava de blocos e bandas que arrastavam centenas de foliões, espremidos nas ruas e becos do Centro, completamente entregues à festa Momesca.

Ao abrir a janela teve seu apartamento invadido pelo som da banda que tocava, como que o chamando para se juntar ao turbilhão que cantava e dançava marchinhas carnavalescas.

Tinha prometido não brincar o carnaval naquele ano. Mas como ficar imune ao ecoar da batida do surdo que parecia sacudi-lo dentro do conjugado alugado no décimo segundo andar do edifício Cantone?

Pegou uma máscara, que guardara de uma fantasia de um antigo desfile da escola de samba Estácio de Sá e desceu para a rua. Misturou-se à multidão que se concentrava na esquina de sua rua para o momento em que a banda sairia e guiaria os foliões pelas ruas do Bairro de Fátima, passando pela Lapa e chegando a seu final apoteótico na Praça da Cruz Vermelha.

Foi no final da Rua do Riachuelo, já virando a Lavradio que ele notou a outra máscara. Idêntica. Gêmea da dele. Provavelmente da mesma ala da Estácio. A outra máscara também notou a semelhança e por algum tempo pareceu fazer as mesmas perguntas que lhe assaltavam a mente diante da coincidência: quem seria? Conheciam-se? Estava olhando para ele? Interrompeu a busca de tais respostas e passou a observar o restante do corpo que completava a outra máscara. Moreno-jambo, alto, magro e com roupas coloridas que se harmonizavam com os tons da máscara.

A essa altura a Banda das Quengas já entrava na Rua Mem de Sá, se dirigindo para a parte final do percurso. Restavam apenas quinhentos metros para que uma aproximação acontecesse, antes da última batida do bumbo e a consequente dispersão dos foliões na esquina da Rua Ubaldino do Amaral com a Rua Washington Luis, onde morava.

Enquanto ensaiava uma aproximação, percebeu que a outra máscara se distanciava da multidão. Pensou ser um sinal e seguiu em seu encalço. De repente a outra máscara virou-se em sua direção e parou esperando que ele se aproximasse.

Assim parados, um diante do outro, pareciam deuses de uma antiga civilização indígena.

Quando ele tentou balbuciar algo; um comprimento, um olá... teve os lábios cerrados pelas pontas dos dedos do outro que com a outra mão o puxou pela nuca fazendo com que as duas máscaras se calassem num beijo ancestral.

PARAM PARAM PARAM PARAM

PAM RAM RAM RAM RAM RAM RAM

O som da corneta vinha de longe tira-lo dos braços de Morfeu. Aguçou os ouvidos para escutar com mais atenção e lembrou: A Banda!!!!

Resolvera dormir um pouco até o horário da saída da Banda e por pouco acaba, literalmente, não vendo a banda passar. Enfiou-se debaixo do chuveiro, botou uma roupa, pegou dinheiro, cigarro, camisinha e… a Máscara.

Será que seu sonho era um bom presságio?

Bom, era carnaval e os mascarados estavam soltos na rua “pra ver a banda passar cantando coisas de amor”!